Sinopse Histórica

 

Freguesia desde 5 de Janeiro de 1962, Algueirão-Mem Martins tinha, antes, a maior parte do seu território na Freguesia de São Pedro de Penaferrim e na Freguesia de Rio de Mouro.

 

Os principais lugares da Freguesia, com referências históricas documentais, arqueólogas ou de património construído são:

 

  • A-dos-Ralhados
  • Baratã
  • Barrosa
  • Casal da Mata
  • Casais de Mem Martins
  • Casal de Ouressa
  • Coutinho Afonso
  • Mercês
  • Pexiligais
  • Recuveiro
  • Sacotes
  • Telhal
  • Vale de Milho
  • S. Carlos
  • Maria Dias
  • Fanares
  • Casal do Choupos
  • São Romão

 

Apesar da numerosa documentação histórica conhecida, não existe qualquer publicação monográfica credível que reuna tal informação dispersa, quer por peças de teor jornalístico, quer por artigos de teor científico ou em revistas de diversas especialidades.

 

Agradecemos a colaboração do Arqueólogo Rui Oliveira na elaboração dos textos sobre a História da nossa Freguesia contidos neste site, nomeadamente:

 

  • Sinopse Histórica
  • Pré-História
  • Época Romana
  • Da Época Medieval à Actualidade
  • Ermida de São Romão

  


 

Pré-História 

 

Há notícias de terem sido encontrados vestígios do:

 

PALEOLÍTICO MÉDIO (MUSTIERENSE?), no Casal dos Choupos (FONTES, 1943:293). Contudo desconhece-se a sua tipologia lítica, a quantidade e onde estão armazenados tais materiais (aparentemente não figuram na lista de materiais doados por Joaquim Fontes ao Museu dos S. Geológicos de Portugal), pois a referência dada pelo Prof. Joaquim Fontes apenas se cinge à localização da estação arqueológica que ele, certamente, referenciou pela primeira vez: «... habitaram o Casal de Choupos, à beira daquele regatinho que, na primeira empresta ar bucólico ao Largo da Capela (da N. Sra. da Natividade), quando os miosótis o salpicam do azul claro das suas flores». A natureza desta jazida paleolítica integra-se, seguramente, no Paleolítico do Complexo Basáltico de Lisboa, cujo padrão está estabelecido pelos mais reputados arqueólogos da actualidade (CARDOSO, ZBYSZEWSKI e ANDREÉ, 1992:24-27), que caracterizam estas estações arqueológicas e respectivos materiais como estações de posição derivada, isto é, fora do contexto onde foram abandonados pelo homem pré-histórico. Para esta realidade contribuíram dois factores: o natural, sobretudo, a erosão; e a acção antrópica, nomeadamente a secular agricultura e os aterros e desaterros. 

 

NEOLÍTICO FINAL E CALCOLÍTICO, existem alguns vestígios no termo da freguesia. Apesar de não terem sido alvo de grandes investigações arqueológicas são constantemente referenciados quer os locais, quer os materiais em literatura especializada. Temos notícia de um monumento funerário colectivo, descoberto e publicado em 1880 por Carlos Ribeiro (VASCONCELOS, 1897:105-107) na Folha das Barradas pertencente à Quinta Regional de Sintra (na actualidade B.A.1, Academia da F.A.P.), mas localizado bem perto do Algueirão Velho. É desconhecido o seu tipo de arquitectura megalítica, e do seu espólio funerário é famoso o ídolo calcário, plano-convexo, cuja ornamentação contém motivos ligados ao culto lunar, como referencia Carlos Ribeiro: «... notamos que um dos baixos relevos esculpidos na parte convexa (...) muito se assemelha ao crescente lunar» (RIBEIRO, 1880:39-40). Cremos que este monumento, já desaparecido, estivesse em conexão cronológica com o pequeno povoado dos finais do Neolítico então existente no topo da colina de Coutinho Afonso, conhecido na carta Arqueológica de Sintra por Povoado de Cortegraça, e com outro provável povoado existente no Casal da Cavaleira do qual se conhecem materiais cerâmicos dispersos por laboração de pedreira antiga.

 


 

Época Romana 

 

Da época romana existem vários vestígios dispersos pelo território da freguesia o que, por si só, demonstra uma intensa ocupação neste período. O padrão ou estratégia de povoamento territorial enquadra-se, neste termo, dentro do que é conhecido para o ager de Olisipo, isto é, um grande número de villae, vocacionadas para a produção agro-alimentar, de autoconsumo, de abastecimento à Lisboa romana e exportação para outras paragens do império. Por outro lado, muitas destas villae desenvolveram paralelamente à agricultura e outros tipos de actividades de extracção e manufactura, ligadas aos materiais construtivos que uma cidade como Lisboa sempre careceu. Este estreito relacionamento entre a cidade e o campo é-nos confirmada pela considerável rede viária da qual, na actualidade, restam vestígios significativos. No caso concreto da nossa freguesia temos notícias de vestígios arqueológicos da época romana no Casal Maria Dias, sobretudo cerâmica dispersa; na Quinta dos Chãos Velhos, Baratã / Recoveiro, cerâmica comum e tijolos bem como notícia do aparecimento de uma inscrição latina (PEREIRA, 1975:217), sem que se conheça os pormenores em concreto; no extremo leste, um troço de via antiga romana, associado a condições geográficas ímpares e vestígios arqueológicos, que incluem monumentos epigrafados fúnebres, apontam-nos para existência de uma vila romana importante ligada à gens Cassi, de resto, ao longo deste troço viário antigo, encontra-se significativos vestígios arqueológicos romanos, nomeadamente em Sacotes, onde um túmulo prismático em mármore (encarnadão) anepígrafo com pódio, serve como cruzeiro no logradouro da localidade; nas ruínas do Casal de A-dos-Rolhados foram recolhidos vários fragmentos de inscrições latinas; nas proximidades, O. da Veiga Ferreira refere a existência de um forno lusitano-romano ou medieval, publicou a foto mas não indicou a localização exacta; das ruínas de São Romão saíram, também, monumentos epigrafados (ver conteúdo alusivo à Ermida); finalmente do espólio arqueológico do Prof. Joaquim Fontes, na posse da sua família, constam materiais romanos provenientes do lugar Currais do Chão.

 

A extensão e grau de conservação dos troços da antiga via romana na freguesia não foram, ainda, devidamente estudados quer do ponto de vista de traçado, quer do ponto de vista técnico construtivo e, finalmente, de prospecção arqueológica sistemática das suas imediações.

 


 

Da Época Medieval à Atualidade 

 

O topónimo 'Algueirão' sugere de uma possível ocupação árabe do termo da Freguesia. Segundo o Prof. David Lopes (REVISTA LUSITANA, vol. XXIV, p. 260), 'Algueirão' deriva do árabe Al-Geirân, plural de Al-Gâr, que significa cova, gruta, barranco, buraco.

 

Todavia, na documentação medieval, o topónimo tarda a aparecer e surgem primeiro outros: Pucilgaes, Mosqueiro, Fanares, Gontijnha Afonso, Maria Dias, Vale do Milho, Córios, etc. 

 

Em 1210, o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, aforou quatro casais em Pucilgaes. 

 

Em 1230, volta a registar-se novo aforamento. 

 

A 5 de Maio de 1263, o mesmo mosteiro aforou um casal em Mosqueiros, que ainda existe na actualidade. 

 

Em 1348, temos notícias de aforamentos pelo mesmo mosteiro em Maria Dias e Gontijnha Afonso e, em 1384, em Vale de Milho (A.H.S., núcleo S. Marques). 

 

O Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho foi, durante séculos, o principal proprietário de terras do actual termo da Freguesia de Algueirão - Mem Martins. 

 

Em Março de 1158, D. Afonso Henriques doou-lhes uma velha quinta moura, o Prazo de Meleças, a que posteriormente se juntaram outros bens já confirmados por Alexandre III, em 1163, como documenta o Livro Santo, na página 104 (MARTINS, 2003:894). 

 

O Prazo de Meleças foi o grande centro organizador dos bens crúzios na região de Lisboa, congregando inúmeros prédios rústicos e urbanos, de elevada rentabilidade agrícola e pecuniária. A sua 'cabeça' era a Granja de Santa Cruz, que ainda existe, localizada entre Meleças e o Sabugo. A sua importância económica era então bastante significativa que, em 1283, por um dos primeiros documentos escritos em português, D. Dinis proibia certos cavaleiros da região de invadirem e usurparem terras deste prazo. 

 

A carta datada de 25 de Agosto, destina-se a informar todos os alcaides, alvazis e meirinhos, justiças e tabeliães, dos direitos legítimos da canónica de Santa Cruz de Coimbra (GOMES, 1988:80-81). Nos séculos XIV e XV, sabe-se que o Mosteiro de Santos-o-Novo das religiosas da Ordem de Santiago tinha bens em Mem Martins.

 

O numeramento do Reino, de 1527m refere: «a Vintana de Algeirãom cõ seus casaes 35 vizinhos (...) e a vintana de Arranholas cõ 36 vizinhos» (L. do INQUÉRITO da COMARCA DA ESTREMADURA, IAN/ANTT). A expressão Vintana é uma corruptela local saloia de Vintena. Trata-se de uma forma arcaica de organização administrativa do território, já referenciada nas Ordenações Afonsinas, que agrupava vinte lugares ou casais em torno de uma 'capital', escolhida segundo a sua densidade populacional.

 

No século XVI, existia uma Irmandade ou Confraria referida como os Confrades de S. Gião do Algueirão, que desconhecemos onde funcionava, há referências dispersas a propriedades do Mosteiro de S. Domingos de Benfica em Fanares (1573 e ss.), Algueirão (1577) e Mem Martins (1595). Antes, em 1537, parte das terras de Fanares estavam aforadas à Igreja de Santa Maria de Sintra.

 

A Lista de Comarcas do Reino, de 1640, volta a apresentar o Algueirão como 'cabeça' ou 'capital' de Vintena, tal como em 1527, o que demonstra a importância do lugar. Tinha então um total de 60 vizinhos [fogo/habitações], assim repartidos: Algueirão - 14, Fanares - 5, Rinchoa - 4, Melessas - 8, Baratã- 4, Prosigais - 4 [Pexiligais], Sacotes - 5, Relhados - 5 [A-dos-Rolhados], Corios - 5 [na actualidade A-dos-Crivos]. Entretanto, a Vintena de Ranholas incluía Mem Martins - 15 e Casais [de Mem Martins] com 6 vizinhos. Coutinho Afonso era da Vintena de Cortegraça e tinha 5 vizinhos.

 

As Memórias Paroquiais de 1758 dão para os lugares que hoje formam a Freguesia, um total de 112 fogos e 314 pessoas [cabe aqui referir que na época eram contabilizadas apenas as pessoas que figuravam nos registos da paróquia. Por vezes, a população era mais numerosa dado que muita gente, não fazia parte do rol de confessados e no caso concreto das crianças, só figuravam nos registos após a Baptismo]: «Cazal de Oureça, 6 pessoas; lugar de São Romão, 6 fogos, 15 pessoas; lugar de Valdemilho, 2 fogos, 10 pessoas; Cazal da Cavaleira, 7 pessoas; lugar de Sacotes, 10 fogos, 30 pessoas; lugar do Algueirão [Algueirão Velho], 34 fogos, 102 pessoas; lugar de Fanares de Sima, 3 fogos, 10 pessoas; lugares de Fanares de Baixo, 2 fogos, 10 pessoas». 

 

Segundo o Prior António Seixas existia no lugar de Fanares de Baixo, na quinta de João Ribeiro da Costa, uma Ermida de invocação de N. Sra. do Cabo. Além dos lugares acima referidos, todos da Freguesia de São Pedro, as Memórias Paroquiais, de 1758, referem ainda como pertencentes à Freguesia de Santa Maria, os lugares de «Maria Dias, 5 famílias, 6 pessoas; Coutim Affonso, 5 famílias, 26 pessoas; Rolhados, 2 famílias, 15 pessoas». Noutro capítulo das Memórias Paroquiais, a Vintena do Algueirão surge com 22 lugares e entre eles alguns não referidos antes, por exemplo: «Matta de Bacho, Telhal, Campos Velhos, Corigos, Fetares, Entre Vinhas, Barroza, Bajouca e Musqueiro» (AZEVEDO, 1982:159).

 

O grande sismo de 1755, apesar de causar danos consideráveis nos edifícios habitacionais da Freguesia, aparentemente não causou baixas entre a população local. As Memórias Paroquiais respeitantes ao Concelho de Sintra e, em particular, as de São Pedro ao qual estava sujeito grande parte do termo da actual Freguesia de Algueirão - Mem Martins, são praticamente omissas neste tipo de informação. Mas sabemos que, por exemplo, no Algueirão, o próprio Marquês de Pombal acelerou a reconstrução das ermidas e das propriedades para assistência espiritual e material da população (SERRÃO, 1982:98). Porém, a acção pombalina não se restringiu apenas à tarefa de reedificar a cidade de Lisboa. A reorganização da Administração Pública, do ensino e, sobretudo, dos meios de população agrícola nas suas múltiplas vertentes são os pilares de desenvolvimento de Portugal saído da 'quimera do ouro brasileiro'. 

 

A paisagem secular do Algueirão altera-se. 

 

A partir das suas propriedades de Sintra e Oeiras, transformadas em pólos dinamizadores de uma nova agricultura e pecuária, Sebastião de Carvalho e Melo impõe novas culturas e tenta implementar novos métodos produtivos. 

 

Deixa de haver 'espaço' para os pequenos seareiros e para a agricultura de subsistência, as searas de pão dominam em cultivo extensivo e intensivo. Temos notícias de um desses arrendatários de terras e produtor cerealífero setecentista; trata-se de um tal José Francisco que, entre 1770 e 1793, era arrendatário de grande parte dos terrenos de cultivo cerealífero do Algueirão, de Mem Martins e Lourel (FONTES, 1943:298-299). Neste contexto de incremento da produção cerealífera, no termo e região envolvente de Lisboa, a moagem tradicional também evolui. Os moinhos eólicos proliferam então na paisagem da Freguesia de Algueirão - Mem Martins e, a partir dos meados de século XVIII, começam progressivamente a deixar de ter uma exploração directa ou por conta própria para passarem a ser aforados ou dados em renda. Realidade que favorece, paralelamente, a concentração de núcleos moageiros, que englobam, por vezes, moinhos eólicos e azenhas na posse de um único proprietário ou arrendatário e um número crescente de trabalhadores assalariados (OLIVEIRA e MACHADO, 2004:30).

 

A partir da segunda metade do século XVIII, a região sintrense é ponto de chegada e fixação, a ritmo cada vez mais acelerado, de populações oriundas de outras partes do território. Tendência que, na actualidade, ainda se mantém, o que proporciona uma característica única a esta Freguesia que concilia, nem sempre de forma harmoniosa, o rural e o urbano. Esta fixação populacional obedece a ciclos determinados e estudados há muito, de fluxos e refluxos populacionais característicos das grandes urbes como Lisboa, isto é, numa primeira fase, um agri abastecedor da urbe; numa segunda fase, os solares e quintas senhoriais, aprazíveis e de recato romântico, de traça realenga ou de burguesia endinheirada, como segunda habitação ou veranil; uma terceira fase, constituída por 'cidades satélites', plenamente suburbanas. Os vários censos conhecidos nesse aspecto são elucidativos: Censo Populacional de 1940: Pexiligais - 108 habitantes; Recoveiro - 54; Barrosa - 24; Coutim Afonso - 51; Sacotes - 91; Algueirão - 570; Mem Martins - 675. No censo de 1970, a freguesia tinha 17.377 habitantes. No censo de 1981, a freguesia tinha 34.451 habitantes.

 

'Aquele lugarejo [Algueirão - Mem Martins] tem a sua História, tem os seus costumes, que um urbanismo intenso fará desaparecer' (FONTES, 1943:311). A História e os Costumes, são criações da prodigiosamente humana, sempre renovadas, sempre fascinantes.

 

Bibliografia

 

ARQ. HISTÓRICO de SINTRA (A.H.S.), Documentação Medieval (núcleo Silva Marques)

AZEVEDO, José Alfredo da Costa, 1982; «Memórias Paroquiais, referentes a Sintra e seu termo (1758)» in: Velharias de Sintra IV, edição da C.M. de Sintra, p. 159

CARDOSO, J. Luís & ZBYSZEWSKY, Georges, ANDRÉ, M. Conceição, 1992; «O Paleolítico do Complexo Basáltico de Lisboa», in: Estudos Arqueológicos de Oeiras 3, edição do C.E.A. do Concelho de Oeiras - C.M.O., pp. 24-27

FONTES, Joaquim, 1943; «Mem Martins, notas Históricas e Etnográficas», in: Boletim da Província da Estremadura, p.293 - 299 e 311.

MARTINS, Armando Alberto, 2003; «O Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra na Idade Média», edição do Centro de História da Universidade de Lisboa, col. Textos Universitários - 2, Lisboa, p. 894

OLIVEIRA, Rui & João, Machado, 2004; «Moinhos Eólicos da Estremadura e Sul de Portugal», in: Cadernos Temáticos, edição Olho Vivo, Associação para a Defesa do Património, Ambiente e Direitos Humanos, Queluz, p. 30.

PEREIRA, Félix Alves, 1975, «Sintra do Pretérito», edição da C.M. de Sintra, p. 217

RIBEIRO, Gen. Carlos, 1880; «Estudos Prehistóricos em Portugal, II - Monumentos megalíticos das vizinhanças de Belas » Academia Real de Ciências de Lisboa, pp. 39-40.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo, 1982; «O Marquês de Pombal - o homem, o diplomata e o estadista», edição das Câmaras Municipais de Lisboa, Oeiras e Pombal; Lisboa, p. 98.

VASCONCELOS, J. Leite de, 1897; «Religiões da Lusitânia », edição Imprensa Nacional (reedição utilizada de 1981), vol. I, Lisboa, pp. 105 - 106.